Mostrar mensagens com a etiqueta et moi dans mon coin. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta et moi dans mon coin. Mostrar todas as mensagens

1.06.2014

:: este não é por acaso o primeiro post de 2014


"Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável, apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega.”

- Herberto Hélder

11.13.2013

:: first world problems

tenho na minha vida falta de palavras que me arrebatam. quero recuperar a capacidade de ver um filme que me encante, de ler um livro que me toque e cuja história se prolongue nos meus dias depois da última página, no espaço e no tempo. apetece-me apanhar tudo, reagir a tudo, ouvir a música no volume máximo. aprender, conversar, apaixonar os outros. apaixonar-me pelos outros. saborear a surpresa do empolgamento, a excitação da descoberta de algo novo: um café, uma rua, um país.
estou velha.
os pés procuram o chão como quem procura sentidos. há tanta coisa à nossa volta e falta-nos tanto a capacidade de pôr energia em mais do que uma ou duas coisas. as escolhas que nos impomos às vezes são tóxicas. e a verdade é que falta tão pouco para partirmos.

11.06.2013

:: just another ordinary day

a noite a cair sobre a avenida. luzes ainda apagadas mas a poucos minutos de se acenderem. a carrinha estacionada com os homens que vêm pôr os enfeites de Natal. é demasiado cedo para ser Natal.

na esquina, a loja de luxo que vai abrir e o casal que faz da rua a sua casa. a senhora e o senhor, sessenta e picos, mãos dadas. um amor ainda recente, vê-se. têm um cão, um saco cama duplo  e uma mesa de cabeceira com flores de plástico num copo. o amor dá vontade de ter flores por perto.

desço a rua com a malta. fala-se do sentido da vida e do papel da religião. eu penso só que gosto mesmo dos desenhos da calçada. o vento entra pelo fundinho das costas, aquele arrepio.
foi só mais um dia de trabalho e no fim uma bebida no quiosque. a noite a cair, o grupo reunido e copos de cerveja demasiado gelada para este dia de Outono. ouvem-se gargalhadas nesta mesa. fumam-se cigarros na mesa ao lado. há uma tosta grande a fumegar nas mãos de uma miúda e o rapaz do bar parece achar-lhe graça.

no outro passeio o senhor beija a senhora. ela ri muito, tem vergonha. agasalha o cão devidamente e pede uma moeda a uma rapariga que passa. entretanto, no quiosque, os copos da cerveja já estão vazios.

10.23.2013

:: thirties are the new twenties... are they really?

a primeira vez que ouvi a frase foi em frente a um ecrã de televisão. Carrie Bradshaw dizia às amigas e a todas nós que assistíamos, também amigas - thirties are the new twenties. a ideia era simpática e colou. fez-me todo o sentido. depois dessa epifania repeti isto milhares de vezes nos últimos anos a mim própria e as pessoas à minha volta também o diziam. era tão reconfortante essa sensação de despreocupação face à angústia geracional de aos vinte e tais ainda andarmos perdidos em relação à vida que queríamos ter.

e assim aprendemos a responder a essa angústia com a convicção de que estávamos todos uma década atrasados e que tínhamos todo o tempo do mundo, ou pelo menos dez anos, para testar e errar. estávamos apenas presos a uma sensação de atraso causada pela transição de uma geração - a dos nossos pais, que aos trinta estavam na meia idade - para a nossa, que aos 20 ainda não sabemos bem o que fazer da vida.

aos trinta e tais (10 anos mais tarde) percebi que Carrie Bradshaw pode ter sido prejudicial a uma geração inteira ao proclamar a trivialização daquela que pode ser a década mais importante da nossa vida e ao incentivar a procrastinação do plano de vida de cada um de nós.

Megan Jay, em The Defining Decade, sugere que os nossos vinte e tais são o momento em que as coisas que fazemos - e sobretudo as que não fazemos - têm um efeito crucial no nosso futuro, na nossa vida e nas pessoas em que nos transformamos. depois de perceber isto entendo porque tenho tantas vezes a sensação de que à medida que os anos passam as pessoas vão perdendo potencial.

80% of life's most defining moment happen before thirty-five.(...)
The real take-home message about the still-developing 20something brain is that whatever it is you want to change about yourself, now is the easiest time to change it. Is your 20something job, or hobby, making you smarter?  Are your 20something relationships improving your personality or are they reinforcing old patterns and teaching bad habits?

What you do everyday is wiring you to be the adult you will be. That's one reason I love working with 20somethings: They are so darn easy to help because they--and their brains and their lives--can change so quickly and so profoundly.
 
é difícil aceitar isto, sobretudo quando se tem trinta e tais, mas as escolhas que fazemos aos 20 e tais são realmente cruciais. não fazer uma escolha é, em si, uma escolha.



2.11.2013

é esta consciência da fragilidade das relações humanas que me lixa. é por causa dela que não consigo tranquilizar-me perante afastamentos que podem ser só temporários. e necessários.
preciso de saber aceitar, de saber afastar-me, de permitir que se afastem de mim e de aprender a zangar-me quando é preciso. 32 anos e ainda tão pouco discernimento!

12.26.2012

::even in the darkness there's always a certain light

precisamos do escuro tanto quanto precisamos da luz.
é no escuro que acontecemos, a vida vive da luz e da escuridão intercaladas mas só nos transcendemos no escuro. graças a Deus há brechas de claridade colocadas estrategicamente na direcção de coisas bonitas para não as esquecermos. ainda bem que é assim porque só conseguimos vê-las de vez em quando, embora estejam lá sempre.

12.01.2012

:: todas estas saudades de conversas que não tivemos

por cá vamos indo. os dias correm como loucos fazendo pouco da nossa vontade de calma e nós vamos fechando os olhos à quantidade de vezes que nos afundamos nele. tem dias que realizamos que não falamos há meses com aquele amigo de sempre, com a prima que é a coisa mais próxima de um irmão que conhecemos e que as horas que dedicamos à avó são curtas em compraração com o que devia. nessa altura uma tristeza violenta amachuca-nos os estômago.

na televisão as notícias são tristes, são histórias de um país que vai morrendo aos bocadinhos e ao meu lado também há pessoas a morrer um bocadinho todos os dias com corações mais cinzentos do que antes. deve ser por isso o medo silencoso a ferir-me a garganta às vezes. em dias assim lembro-te mais, avô.

tirando isso tudo, às vezes uma saudade brutal de escrever. acho que me esqueci disso também. não é por falta de tema mas não tenho sentido as dores e a alegria em palavras. já pensei que o silêncio de hoje talvez seja melhor que as palavras de tantos anos, a idade também já não se dobra aos exageros do coração.

sabes uma coisa? tenho pensado que esta tua ausência faz escuro nos olhos, mas sei que isso pouco importa porque me ensinaste uma vez que não são os olhos que realmente vêem. terias gostado de saber que estes dias de Inverno têm estado frios, mas bem bonitos.



10.11.2012

há uma frase do Bukowski que encerra nela aquilo que a vida devia ser. porque insinua que devemos pegar a vida pelos cornos, que somos nós que a comandamos e que depende de nós o proveito que tiramos dela. You will ride life straight to perfect laughter. acho uma ideia bonita. e acredito que a vida pode ser mesmo um riso bem alto e perfeito.
mas Bukowski começa assim: If you're going to try, go all the way. Otherwise, don't even start. This could mean losing girlfriends, wives, relatives and maybe even your mind. It could mean not eating for three or four days. It could mean freezing on a park bench. It could mean jail. It could mean derision. It could mean mockery--isolation. Isolation is the gift. All the others are a test of your endurance, of how much you really want to do it. And, you'll do it, despite rejection and the worst odds. And it will be better than anything else you can imagine. If you're going to try, go all the way. There is no other feeling like that. You will be alone with the gods, and the nights will flame with fire. You will ride life straight to perfect laughter. It's the only good fight there is.
indeed!

7.14.2012

:: baby we'll be fine. all we gotta do is be brave and be kind.

"man had long experience in surviving adversity, but little experience in surviving prosperity"
 
tem dias, logo pela manhã, em que a vida pode ser-nos hostil. seja porque não apetece acordar, ou porque a cama é demasiado grande para um corpo só. às vezes pode até ser a multa de estacionamento inesperada que nos azeda o humor. e sim, é verdade que este Verão não é o mais quente, é verdade que há gente, demasiada gente de quem gostamos, e também outros que não conhecemos, a fazer um esforço desmedido para ser feliz.
tem dias, por isso tudo e ainda por causa de uma solidão que não é verdade, que alternam entre o mau feitio e a nostalgia de um tempo em que ainda não tínhamos sido apanhados pela armadilha que é crescer. mas há que reconhecer que este tempo endurece-nos... e é por isso que somos feitos dessa matéria que nunca quebra.

4.27.2012

:: bom conselho

"quando os outros a acusam de estar diferente, em vez de se revoltar, indignar, de se vulnerabilizar, pense se realmente não terá mudado. é claro que mudou, não podia não ter mudado. e então?"

4.20.2012

todos lhe tentavam ensinar a arte que ninguém sabe. estar só.
era por bem, por lhe quererem muito, mas não se pode ensinar uma coisa que não se sabe e então ela tentava aprender sozinha e repetia para si prórpia quando subia a rua, quando lavava os dentes, quando engolia o café, só posso contar comigo. só posso contar comigo, só posso contar comigo.
achava que aprendendo a solidão se aprende a expulsar todos os medos. e para nunca se esquecer disso, decorou Clarice Lispector. que minha solidão me sirva de companhia. que eu tenha a coragem de me enfrentar. que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.

4.09.2012

:: às vezes a melancolia

vi-o uma primeira vez ligeiramente ao longe num miradouro de Lisboa, num dos mais bonitos. era uma noite quente para Outubro ou Novembro e ele pareceu-me bem. já não sei o mês ao certo que o tempo tem esta coisa de se diluir nas pessoas que nos marcam, mas a relevância do tempo é pequena nesta história.
sei que semanas depois dessa noite no miradouro, um dia a pele. e foi como se me beijassem por dentro. e em toda essa certeza da pele eu passei a imaginar uma estrada nacional só para nós, uma praia só para nós, um caminho de moinhos de vento onde não tivéssemos que nos cruzar com mais ninguém. mas nada disso éramos nós os dois. fui sempre só eu e sabíamos, mas continuávamos, deslumbrando-nos um ao outro, embora sabendo-nos no fundo incapazes de voltar a amar. quis existir com ele sem esforços, mas não houve lugar para nós além da pele.

3.19.2012

uma vez mais, aquele tema da idade.


aos dezoito julgámo-nos velhos com trinta e surpreendentemente aqui estamos, em plenos trinta, mais empenhados que nunca em matar a ideia dos trinta. o casamento, os filhos, a casa própria, as férias programadas. a carreira.
apesar de tudo era bonita essa ideia de uma idade tranquila, em que tudo estaria conquistado.

3.15.2012

há uma beleza qualquer nas coisas todas que aprendemos quando a vida nos expulsa para fora do nosso casulo. um certo desconforto também.

2.06.2012

uma mulher só precisa de um homem cuja pele grite por cada poro como ela é especial. parece fácil, mas é uma arte que poucos dominam.