...o meu amor é peqenino como um grão de arroz, é tão pequeno que ninguém sabe onde mora... ai, se o amor vier, seja o que Deus quiser...
e à segunda estrofe já eu tinha perdido o embaraço e cantava com ele. isto acontecia depois do reencontro, uma vez por semana, às quartas-feiras. todas as quartas-feiras eu sabia que era ele que estaria do lado de fora do colégio e nesses dias, as minhas pernas ganhavam asas. eu saltitava no caminho para o parque enquanto ele mantinha o passo certo e o aprumo. lembro-me da camisa branca. sempre brancas as camisas, como o cabelo. e perfumadas.
no parque eu corria para os baloiços e ele descascava a banana. o nosso ritual para que eu comesse o lanche sem queixas era apanhar das mãos dele com a boca os bocadinhos da banana e do pão entre o vaivém do baloiço. comigo de barriga cheia ele vinha, com paciência infinita, para trás do baloiço aceder ao meu pedido - "mais alto avô, mais alto até tocar com o pé naquele ramo da árvore". e apesar de estar de costas sentia-o sorrir para dentro, como quem faz que sim, enquanto travava a minha vontade de voar.
homem de poucas palavras, o meu avô, mas de uma sabedoria infinita.
