4.29.2009

dava-me o indicador para atravessarmos a rua e eu acedia, iludida da minha independência, por não ser a mão toda e abraçava com força o dedo grosso e forte. era nessa altura que quase sempre ele trauteava a música, sempre a mesma, sempre no tom, e de todas as vezes eu ria, envergonhada, porque apesar de não saber nada do amor, na altura eu já desconfiava que aquelas palavras eram de amor.

...o meu amor é peqenino como um grão de arroz, é tão pequeno que ninguém sabe onde mora... ai, se o amor vier, seja o que Deus quiser...

e à segunda estrofe já eu tinha perdido o embaraço e cantava com ele. isto acontecia depois do reencontro, uma vez por semana, às quartas-feiras. todas as quartas-feiras eu sabia que era ele que estaria do lado de fora do colégio e nesses dias, as minhas pernas ganhavam asas. eu saltitava no caminho para o parque enquanto ele mantinha o passo certo e o aprumo. lembro-me da camisa branca. sempre brancas as camisas, como o cabelo. e perfumadas.

no parque eu corria para os baloiços e ele descascava a banana. o nosso ritual para que eu comesse o lanche sem queixas era apanhar das mãos dele com a boca os bocadinhos da banana e do pão entre o vaivém do baloiço. comigo de barriga cheia ele vinha, com paciência infinita, para trás do baloiço aceder ao meu pedido - "mais alto avô, mais alto até tocar com o pé naquele ramo da árvore". e apesar de estar de costas sentia-o sorrir para dentro, como quem faz que sim, enquanto travava a minha vontade de voar. 

homem de poucas palavras, o meu avô, mas de uma sabedoria infinita.


4.28.2009

:: deep, deep into the water

a cereja em cima do bolo no fim de uma semana ligeiramente conturbada, to say the least:

entusiasmadíssima e expectante na primeira sessão de mergulho em mar alto e sou surpreendida por um.... ataque de pânico a, hummm.... digamos.... um metro da superfície... um metro e meio, vá...

4.24.2009

:: agora a sério páh,


arranjem-me o contacto de um bruxo eficiente e baratinho!!!

é que depois da privação de sono por três noites consecutivas; de ver o combóio partir mesmo, mesmo quando chego à plataforma, todos os dias, para lá e para cá, desde o início da semana; de me terem deixado um desenho abstracto num sítio que NÃO É SUPOSTO SER TELA DE ARTE para as esteticistas darem asas à imaginação; de ter ficado com o casaco preso no metro e ainda ter de levar com as pessoas do lado de fora a gozar o pratinho delas de dedo em riste apontado para mim e ar de troça como manda a boa educação portuguesa

... o cabrão do pássaro deve ter achado que o meu ar miserável não era assim tão miserável ali sentadinha no largo Camões a pensar na minha vidinha e resolve cagar-me (que é mesmo assim!) em cima!

4.16.2009

:: 31... 30... 29....

esperar assim tão ansiosamente as férias e depositar num destino longínquo a salvação para tantas coisas do dia-a-dia que deviam sustentar-se sozinhas, desejar aquela bolha de ar de sete dias cheia de oxigénio verdadeiro e encher o peito para durar para sempre. 

deitar-me debaixo do sol, com a areia a queimar nas costas e dar-te a mão. aproveitar a sensualidade desse toque pelo que é, sem pressas, sem culpas, sem fantasmas.