11.05.2009

:: CUF, a epopeia

talvez as semanas anteriores tivessem sido demasiado intensas. certo é que fui naquela viagem de corpo e alma, decidia a aproveitar tudo o que podia e mais alguma coisa. cansei o corpo e o espírito ainda mais. devo ter esgotado as reservas de energia e acabadinha de chegar, o meu corpo arranjou uma forma curiosa de manifestar o seu desagrado pela forma como andava a abusar dele. não deixa de ter alguma piada esta vontade própria do meu corpo (assim como a minha mente, mas isso não é novo).

há que esclarecer que eu nunca estive doente. assim doente a sério! e sou completamente desleixada no que respeita à saúde, mas quando me vejo assim sem energia e forças dá-me para o histerismo e fico com comportamentos hipocondríacos. drama queen, portanto. sinto a morte chegar, faço o funeral e ainda assino óbito.

chegada a Lisboa de manhã, fresquinha que nem uma alface, passo o dia no trabalho que ali não há mal que me chegue. em casa começa o teatro. coço-me, coço-me, sinto o cansaço febril e o corpo mole. as manchas aparecem. passa o tempo. as manchas alastram, o antebraço incha. os lábios ficam a ferver e enormes.

linha saúde 24. do outro lado quem ouve os sintomas fica apreensivo, diria até nervoso. consegue respirar? sim, respiro bem, se não respirasse não estava ali tranquila a falar ao telefone. recomenda anti-histamínicos e gel para acalmar a reacção na pele. nesta altura desligo o telefone e a minha cara já era só boca (já sei como ficarei um dia se fizer uma cirurgia estética que corra mal).

desmaiei. acordei. fui para o hospital. já toda eu era uma mancha só. cheia de vergonha, só queria que o médico percebesse que os meus lábios estavam deformados, que aquilo não era assim no dia-a-dia. repeti 10 vezes - tenho a boca inchada. o sr doutor, parco em palavras e incomodado com a minha maleita, provavelmente porque o obrigava a pensar, lá mandou o enfermeiro encher duas seringas com cortisona que me despejou para a veia. as pessoas gostam de fazer graças quando as outras estão doentes para animar, mas não anima nada, só piora porque não revela compadecimento com o nosso mal. e nestas alturas uma pessoa, hipocondríaca ainda para mais, precisa de mimo, não das piadas vazias da malta do hospital. fiquei à espera que fizesse efeito, adormeci na sala de espera, acordei, tive alta e ainda perguntei: mas não é preciso tomar nada nos próximos dias? Nao era.


no dia seguinte parecia que estava curada. mas só por algumas horas. à tarde repetiu-se o teatro: hospital e cortisona. à noite dores insuportáveis no corpo, febre, língua a inchar, nariz tapado, garganta seca.

112. urgências e cortisona.

mais um dia, nova ida ao hospital. cortisona. sempre que passavam 12 horas da pica, os sintomas voltavam. energia zero. eu, não só de rastos, sobretudo assustada. nunca me fizeram análises, o mais semelhante a uma análise era o desagradável franzir do rosto numa expressão de horror quando eu levantava a roupa (o que é sempre muito lisonjeador)... e uma pessoa imagina que os médicos já viram tudo...

a mesma cena, no dia seguinte. 5 dias com o hospital como segunda casa. eu, desamparada, os que me acompanhavam, desamparados. já eu imaginava o resto da minha vida assim, a caminho do hospital, dependente de cortisona, inchada que nem um balão, com a pele em erupção. conseguir manter as unhas afastadas do corpo requeria um esforço titânico e à noite era impossível. fiquei arranhada durante uns dias, pois claro que fiquei, ah mas era tão boa aquela sensação curta de alívio!

lá houve um sábio e santo médico que me olhou, passados 5 dias, com olhos de pessoa para lá dos olhos de médico e acho que se compadeceu com o meu sofrimento e com a triste sina de passar os dias no hospital em agonia física e psíquica e, num discurso coerente e mais rico que as monosílabas do costume (afinal há esperança), lá me explicou que teria que fazer um tratamento contínuo. antes disso, cortisona em dose de cavalo. "se não for lá assim, não sei como irá" disse-me ele. sensibilidade, de facto, não é o forte dos médicos das urgências, passa-lhes a morte pela frente todos os dias, imagino, estão vacinados contra a compaixão. mas a este perdoo-lhe tudo. estou ainda um pouco abalada mas decidida a defender a sua canonização junto do Papa por me ter salvo a vidinha!

:: um serão muito bem passado!

10.17.2009

:: feels like home, kind of...

esta semana:

o regresso a um sítio que me diz muito, um momento chave no meu percurso, não especialmente feliz, mas crucial. uma grande confusão e tudo muito a 100 à hora. o trabalho da semana e o trabalho atrasado e ainda menos tempo para tudo isso. os reencontros, as grandes novidades, o sentimento corporativo ao rubro no seu expoente máximo. saber antes do mundo tudo o que está para acontecer e sermos convencidos que fazemos parte disso.

tudo isto no meio de muita agitação, a previsão de pouco sono, o coração a mil, os sentidos desafiados pelo barulho, as luzes, a multidão, as caras conhecidas e as novas caras.

nunca consigo processar estes desafios todos em tempo real. só passados uns dias, depois de abrandar o ritmo. mas desta vez é diferente, pelo sítio e pelo momento, antecipo e estou expectante. há coisas que não consigo processar para já e esta é a desculpa perfeita para não ter de o fazer.

:: contrastes

detesto aquela avenida quando escurece. está cheia de turistas desinteressados e de pessoas que me perturbam. hoje, enquanto a descia, fiquei presa naquela cena: um homem de meia idade que tinha um buraco na camisa na zona do ombro e a barba escura de três dias. ia de braço dado com uma senhora bastante mais velha, que se esforçava a sério para acompanhar o passo do homem, rápido, rápido, quase em início de corrida. a senhora ficava cada vez mais para trás mas tinha o braço preso no homem. parecia zangado e andava com fúria. ela, torta, cada vez mais em esforço, o ar bondoso tão característico das rugas a dar lugar à aflição... e então apareceu outro homem, mais novo, juntou-se aos dois, perguntou quanto é que a tia tinha feito, ao que o outro respondeu irritado, dois euros e tal, hoje só fez dois euros e tal.

e eu, que até tinha intenção de chamar a atenção para o esforço da senhora, deixei-me ficar. estática. com as entranhas num nó. depois? depois fui ao teatro...

10.15.2009

(...)

és um modelo especial ... à prova de crianças.
assim de chofre! como quem diz: és um colete à prova de balas!

10.10.2009