não acredito em pessoas que não tenham a arrogância de querer entender tudo, sobretudo o que lhes diz respeito, nem em gente que nunca na vida se meteu no carro sem um destino traçado, para sentir o prazer de conduzir à deriva [a pilha de cigarros no cinzeiro]. demorar a chegar a lado nenhum é um conforto que poucos podem ter. os que não sentem a agonia de não conhecer o fim do livro são uma espécie diferente e fazem-me crer que não sofrem, mas também não amam desmedidamente ou são capazes de sentir o prazer maior do vento a dançar-lhes com os cabelos.
parece mal estar triste quando não se está doente. não se deve assumir a solidão quando há alguém que tem a felicidade embrulhada e pronta para nos oferecer. não se pode vestir o papel do autista inconsequente quando as nossas pessoas nos exigem o espírito presente. este estado de espírito não é compatível com os outros porque esses têm sempre a opção de deixar de gostar de nós.
só quando estou comigo sou eu própria, material em bruto. nada em mim é completo, aprumado ou sequencial. sou caos, orgulhosamente caos. escrever é desses momentos de deriva na estrada.
ərn


