o sol atrasou-se hoje - já é Dezembro.
a subir as escadas para o Príncipe Real, o casaco aperta-se até ao pescoço e dão vontade de rir os fuminhos que se soltam da garganta [em miúda esperava pelo Inverno para fingir que sabia fumar.]
nesta cidade até o Inverno é bonito, até a noite traz raios de sol. Lisboa é como Dezembro - uma promessa de renovação, um grito de uma alegria contida, melancólica e misteriosa como se quer qualquer objeto de desejo. há lugares que só por serem como são, pela sua honesta simplicidade, nos pertencem como outros não conseguem. o frio deste anoitecer de hoje aquece-me o coração, como às vezes nenhum sol de Verão.
e isto tudo, no curto caminho para casa.
12.12.2014
8.12.2014
:: sundays
fins-de-semana de Verão deviam ser sempre assim, de petiscos e amigos, de bons vinhos, gargalhadas e lua cheia. deviam ser sempre cheios, mas cheios mesmo. isto tudo menos as noites de Domingo e aquela angústia inevitável. ainda que se conviva com ela invariavelmente a cada sete dias, estranha-se sempre... mas é mesmo assim. são precisos espaços entre momentos para dar lugar a outros momentos, para os distinguir e destacar os dias mais baços dos outros, os cheios de vida, os salgados, os inebriantes.
os fins-de-semana de Verão parecem-se com os novos amores. de repente é primavera dentro de nós, mas eventualmente, chegará segunda-feira outra vez. há uma promessa nos dias de estio e lazer de um tempo prolongado, quase-infinito, até pelos dias que demoram mais a cair. e no amor há tembém essa beleza de um preenchimento infinito que, no fundo, sabemos tão profundamente finita - havemos de voltar aos dias pequenos e reaprender a manejar a perícia das horas mais escuras como reaprendemos a manejar as emoções quebradas.
nessa altura põe-se um disco. que o embalo é preciso nas madrugadas de Inverno. e nas segundas-feiras também.
os fins-de-semana de Verão parecem-se com os novos amores. de repente é primavera dentro de nós, mas eventualmente, chegará segunda-feira outra vez. há uma promessa nos dias de estio e lazer de um tempo prolongado, quase-infinito, até pelos dias que demoram mais a cair. e no amor há tembém essa beleza de um preenchimento infinito que, no fundo, sabemos tão profundamente finita - havemos de voltar aos dias pequenos e reaprender a manejar a perícia das horas mais escuras como reaprendemos a manejar as emoções quebradas.
nessa altura põe-se um disco. que o embalo é preciso nas madrugadas de Inverno. e nas segundas-feiras também.
8.07.2014
:: retour
voltei, uns meses depois, com a vontade da falta que me faz escrever. se as palavras me souberem aceitar, quero voltar a tratá-las com a delicadeza que merecem, reaprender os seus jogos de possibilidades infinitas. é isso que gosto nas palavras - as janelas nunca se fecham, há sempre a possibilidade de uma outra conjugação perfeita.
e as minhas palavras vão estar aqui também.
e as minhas palavras vão estar aqui também.
1.07.2014
1.06.2014
:: este não é por acaso o primeiro post de 2014
"Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável, apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega.”
- Herberto Hélder
11.25.2013
11.13.2013
:: first world problems
tenho na minha vida falta de palavras que me arrebatam. quero recuperar a capacidade de ver um filme que me encante, de ler um livro que me toque e cuja história se prolongue nos meus dias depois da última página, no espaço e no tempo. apetece-me apanhar tudo, reagir a tudo, ouvir a música no volume máximo. aprender, conversar, apaixonar os outros. apaixonar-me pelos outros. saborear a surpresa do empolgamento, a excitação da descoberta de algo novo: um café, uma rua, um país.
estou velha.
os pés procuram o chão como quem procura sentidos. há tanta coisa à nossa volta e falta-nos tanto a capacidade de pôr energia em mais do que uma ou duas coisas. as escolhas que nos impomos às vezes são tóxicas. e a verdade é que falta tão pouco para partirmos.
estou velha.
os pés procuram o chão como quem procura sentidos. há tanta coisa à nossa volta e falta-nos tanto a capacidade de pôr energia em mais do que uma ou duas coisas. as escolhas que nos impomos às vezes são tóxicas. e a verdade é que falta tão pouco para partirmos.
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