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2.01.2015

:: nota sobre uma manhã de chuva

nesta passagem pela época fria do ano tem dias em que devia ser lei enrolarmo-nos na madrugada dos lençóis a ouvir o barulho das coisas lá fora a começar. primeiro os pássaros no jardim [a descobreta que também há pássaros no Inverno], depois o chuveiro na casa do lado e finalmente os objetos que teimam em cair ao chão a horas desadequadas lá no 1º esquerdo. só depois os carros e a gente e a energia desadequada das vozes dos senhores da obra mesmo à frente da porta.

estes são os intervalos da vida de todos os dias. não trazem mais conhecimento ou especial lucidez, mas talvez sirvam para pôr o tempo em perspectiva. o tempo, essa ferida menor.

pedimos para que voltem as horas grandes e o clima ameno para que consigamos outra vez meter nos dias tudo aquilo que temos pendente. mas o tempo é preciso devagar, sem pressas. deixá-lo fazer o seu trabalho numa manhã de chuva é arte que esta geração não conhece.

depois queixam-se.

1.27.2015

:: divórcio

a vida muda
as coisas mudam.
mais que não seja é a gente que muda. 
 
vou-nos desenlaçando devagar nas memórias enquando escavo por aquilo que já fomos. vou-te esquecendo nos gestos que deixaste de ter, nas palavras que são cada vez mais escassas, até nas linhas de um postal antigo. lembro-me que não há muito tempo escrevíamos um ao outro...
há ainda duas mantas na sala e penso em dizer adeus. penso que um dia teremos oportunidade de dizer todos os adeus, é possível até que nos choremos, é possível que, no fim, façamos juras de amor eterno. mas acabará sempre por ficar apenas uma manta na sala.
esta maldita liberdade que nos prende debaixo da ilusão de que podemos tudo eternamente, estejamos nos 20, nos 40, nos 60. no fim acabamos com nada. não deixamos de ser uma apanhado de pequenas histórias insignificantes. 
decido partir. convenço-me que é por falta de opção. lá fora o dia segue passando, um casaco parece-me bem.
 
 

1.06.2014

:: este não é por acaso o primeiro post de 2014


"Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável, apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega.”

- Herberto Hélder

11.13.2013

:: first world problems

tenho na minha vida falta de palavras que me arrebatam. quero recuperar a capacidade de ver um filme que me encante, de ler um livro que me toque e cuja história se prolongue nos meus dias depois da última página, no espaço e no tempo. apetece-me apanhar tudo, reagir a tudo, ouvir a música no volume máximo. aprender, conversar, apaixonar os outros. apaixonar-me pelos outros. saborear a surpresa do empolgamento, a excitação da descoberta de algo novo: um café, uma rua, um país.
estou velha.
os pés procuram o chão como quem procura sentidos. há tanta coisa à nossa volta e falta-nos tanto a capacidade de pôr energia em mais do que uma ou duas coisas. as escolhas que nos impomos às vezes são tóxicas. e a verdade é que falta tão pouco para partirmos.

11.06.2013

:: just another ordinary day

a noite a cair sobre a avenida. luzes ainda apagadas mas a poucos minutos de se acenderem. a carrinha estacionada com os homens que vêm pôr os enfeites de Natal. é demasiado cedo para ser Natal.

na esquina, a loja de luxo que vai abrir e o casal que faz da rua a sua casa. a senhora e o senhor, sessenta e picos, mãos dadas. um amor ainda recente, vê-se. têm um cão, um saco cama duplo  e uma mesa de cabeceira com flores de plástico num copo. o amor dá vontade de ter flores por perto.

desço a rua com a malta. fala-se do sentido da vida e do papel da religião. eu penso só que gosto mesmo dos desenhos da calçada. o vento entra pelo fundinho das costas, aquele arrepio.
foi só mais um dia de trabalho e no fim uma bebida no quiosque. a noite a cair, o grupo reunido e copos de cerveja demasiado gelada para este dia de Outono. ouvem-se gargalhadas nesta mesa. fumam-se cigarros na mesa ao lado. há uma tosta grande a fumegar nas mãos de uma miúda e o rapaz do bar parece achar-lhe graça.

no outro passeio o senhor beija a senhora. ela ri muito, tem vergonha. agasalha o cão devidamente e pede uma moeda a uma rapariga que passa. entretanto, no quiosque, os copos da cerveja já estão vazios.

10.09.2013

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices 
                                                                       que andam
-- Mário Cesariny --

12.01.2012

:: todas estas saudades de conversas que não tivemos

por cá vamos indo. os dias correm como loucos fazendo pouco da nossa vontade de calma e nós vamos fechando os olhos à quantidade de vezes que nos afundamos nele. tem dias que realizamos que não falamos há meses com aquele amigo de sempre, com a prima que é a coisa mais próxima de um irmão que conhecemos e que as horas que dedicamos à avó são curtas em compraração com o que devia. nessa altura uma tristeza violenta amachuca-nos os estômago.

na televisão as notícias são tristes, são histórias de um país que vai morrendo aos bocadinhos e ao meu lado também há pessoas a morrer um bocadinho todos os dias com corações mais cinzentos do que antes. deve ser por isso o medo silencoso a ferir-me a garganta às vezes. em dias assim lembro-te mais, avô.

tirando isso tudo, às vezes uma saudade brutal de escrever. acho que me esqueci disso também. não é por falta de tema mas não tenho sentido as dores e a alegria em palavras. já pensei que o silêncio de hoje talvez seja melhor que as palavras de tantos anos, a idade também já não se dobra aos exageros do coração.

sabes uma coisa? tenho pensado que esta tua ausência faz escuro nos olhos, mas sei que isso pouco importa porque me ensinaste uma vez que não são os olhos que realmente vêem. terias gostado de saber que estes dias de Inverno têm estado frios, mas bem bonitos.



7.25.2012

:: haja Invernos bons

percebi tarde, só ontem depois do concerto, que o nome Bon Iver surgiu do Francês bon Hiver e que portanto significa um bom Inverno. Justin compôs o album For Emma, Forever Ago ainda antes de haver nome para o grupo. naquele Inverno de 2007, isolado numa cabana no Winsconsin a recuperar de uma mononucleose aguda, a ideia não era fazer música, seria um Inverno de recuperação e de instrospecção. mas parece que há coisas que não se conseguem evitar e nesse mesmo Inverno, nesse bom Inverno no Winsconsin, nasceu Bon Iver.
a música deles é isso, um Inverno profundo, agudo, como os Invernos que todos nós enfrentamos num momento ou noutro. un bon Hiver soa-me a um desejo escondido numa metáfora, à ideia de que também é da adversidade que nascem coisas boas. e em pleno Inverno temos sempre o conforto de saber que o Verão há-de chegar em breve.

5.15.2012

hoje fui encontrar-me longe de todas as coisas que sou. é assustador o quanto ainda quero estar longe de todas as coisas que sou. menos, mas ainda muito.
ou então hoje estou só um bocado azeda.

:: tira esse tempo para ti

nunca há tempo para parar... é preciso a morte acontecer-te.
tira esse tempo para ti, dão-te esse presente quando já não podes usá-lo com quem querias, como se não fosse já teu. prometes que daí para a frente será diferente. nunca é.
a morte acontece-te, páras e não sabes o que fazer com a liberdade que o tempo te dá ao cérebro para se enrodilhar de novo na forma como a vida te surpreendeu. não queres esse tempo envenenado, procuras o telemóvel, procuras internet, vais em busca de um canto escuro, de uma revista, mas parece mal. pedes às pessoas que venham, que tragam outros temas, ninguém quer a cabeça inundada com tempo.
de repente dão-te tempo e dás-te conta de como gostarias de recuperar as anestesias digitais, as anestesias sociais de todos os dias.
e depois, no meio dos emails, do telemóvel, dos telefonemas, das mensagens, um abraço.
um abraço que vem cheio desse tempo e já não podes evitar sentir. [silêncio]
morreu. e com a morte levou todos os nossos amanhãs.

1.21.2012

:: o ano em meses

cola-se aos meses do ano tudo o que nos acontece porque temos esta mania parva de carimbar temporalmente as nossas memórias. e foi assim que Agosto se tornou no mês mais bonito e depois no mais negro. Abril também tem história. Novembro nem tanto.

12.30.2011

:: 2011 (part 1)


penúltimo dia do ano.
apercebo-me agora do paralelismo que a decisão de começar 2012 fora de Portugal tem com a última passagem de ano. imagino que seja o meu subconsciente a pedir mudança, lugares novos na minha vida para o futuro.
irónico, irónico, é que esta merda no ano passado funcionou. a psicologia humana é tramada.

12.20.2011

:: autour de ma maison (2)


mudar de casa não é equivalente a mudar de vida? quantas vezes temos para começar de novo?

2.07.2011

não me sai da cabeça a frase deliciosa da Maria Filomena Mónica, nunca fui uma pessoa contente. convenhamos, por mais que os ventos lhes corram de feição, há pessoas que nunca o são.

2.02.2011

:: em ebulição

os outros dizem que está tudo certo e a mim tudo me continua a parecer de pernas para o ar, às vezes cada vez mais ao contrário, a vida a insistir em correr ao contrário de mim e tudo do avesso também neste blogue que não serve para nada a não ser para perder tempo.

alguém na televisão, uma mulher bem bonita, dizia que aos trinta foi muito mais feliz que aos vinte, que com os trinta vem a confiança, vêm as certezas, há até uma certa beleza que sai de dentro para fora. tudo ao contrário de mim, vês? eu, na verdade, só quero ser menina de novo e como não consigo vou usando as palavras para disfarçar pensamentos neste blogue que, não tendo outra utilidade, serve ao menos para isso.

soa-me muito a cansaço. um cansaço físico que já nem se distingue do outro, entranhado.  tão estoirada que já não consigo fazer caber em mim todos os sonhos do mundo... pode ser que isto vá lá com vitaminas.

2.01.2011

aquilo que ela mais gostava nele era aquele jeito de quem vive os dias à vez, próprio dos que têm a certeza que corre sempre tudo bem, mesmo quando não.
isso era também aquilo que ela menos gostava nele.

12.02.2010

e assim, sem darmos conta, chegamos a Dezembro outra vez, ao mesmo Dezembro que deixou de ser o mês do Natal para passar a ser o mês em que deixaste de estar connosco.

11.16.2010

não há desilusão maior que a desilusão de nós próprios. o desapontamento dos outros não pode nunca competir cm isto.