nesta passagem pela época fria do ano tem dias em que devia ser lei enrolarmo-nos na madrugada dos lençóis a ouvir o barulho das coisas lá fora a começar. primeiro os pássaros no jardim [a descobreta que também há pássaros no Inverno], depois o chuveiro na casa do lado e finalmente os objetos que teimam em cair ao chão a horas desadequadas lá no 1º esquerdo. só depois os carros e a gente e a energia desadequada das vozes dos senhores da obra mesmo à frente da porta.
estes são os intervalos da vida de todos os dias. não trazem mais conhecimento ou especial lucidez, mas talvez sirvam para pôr o tempo em perspectiva. o tempo, essa ferida menor.
pedimos para que voltem as horas grandes e o clima ameno para que consigamos outra vez meter nos dias tudo aquilo que temos pendente. mas o tempo é preciso devagar, sem pressas. deixá-lo fazer o seu trabalho numa manhã de chuva é arte que esta geração não conhece.
depois queixam-se.
Mostrar mensagens com a etiqueta autour de ma maison. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta autour de ma maison. Mostrar todas as mensagens
2.01.2015
12.12.2014
:: o Inverno perto de casa
o sol atrasou-se hoje - já é Dezembro.
a subir as escadas para o Príncipe Real, o casaco aperta-se até ao pescoço e dão vontade de rir os fuminhos que se soltam da garganta [em miúda esperava pelo Inverno para fingir que sabia fumar.]
nesta cidade até o Inverno é bonito, até a noite traz raios de sol. Lisboa é como Dezembro - uma promessa de renovação, um grito de uma alegria contida, melancólica e misteriosa como se quer qualquer objeto de desejo. há lugares que só por serem como são, pela sua honesta simplicidade, nos pertencem como outros não conseguem. o frio deste anoitecer de hoje aquece-me o coração, como às vezes nenhum sol de Verão.
e isto tudo, no curto caminho para casa.
a subir as escadas para o Príncipe Real, o casaco aperta-se até ao pescoço e dão vontade de rir os fuminhos que se soltam da garganta [em miúda esperava pelo Inverno para fingir que sabia fumar.]
nesta cidade até o Inverno é bonito, até a noite traz raios de sol. Lisboa é como Dezembro - uma promessa de renovação, um grito de uma alegria contida, melancólica e misteriosa como se quer qualquer objeto de desejo. há lugares que só por serem como são, pela sua honesta simplicidade, nos pertencem como outros não conseguem. o frio deste anoitecer de hoje aquece-me o coração, como às vezes nenhum sol de Verão.
e isto tudo, no curto caminho para casa.
5.31.2012
:: a cada tempo o seu espaço
um dia mais à frente vou pensar no presente como aquele tempo em que vivi naquela casa cor de rosa, naquele bairro de fachadas de azulejo e vou recordar o limoeiro no meio da cidade. não me lembro de gostar tanto de um sítio.
uma casa está sempre colada ao seu tempo e a vida ligada aos espaços onde acontece. um dia esta casa vai trazer-me de volta os anos em que foi preciso ultrapassar, saltar à frente, descobrir lugares, trocar horários, inventar rotinas. esta vai ser lembrada como a casa onde me obriguei a crescer e este tempo de agora estará sempre abraçado a muitos risos, muitas lágrimas, muitas surpresas, muita raiva e beleza. a muito de tudo. e quando se sente muito e não estamos vazios aprendemos que o pretérito nem sempre é imperfeito.
quem já sentiu o coração estilhaçar-se não vai querer menos do que uma possibilidade maior de isso acontecer outra vez, e este tempo, esta casa, estão também associados a esse renascer sem a inocência de antes. e à tua nuca em contraluz.
uma casa está sempre colada ao seu tempo e a vida ligada aos espaços onde acontece. um dia esta casa vai trazer-me de volta os anos em que foi preciso ultrapassar, saltar à frente, descobrir lugares, trocar horários, inventar rotinas. esta vai ser lembrada como a casa onde me obriguei a crescer e este tempo de agora estará sempre abraçado a muitos risos, muitas lágrimas, muitas surpresas, muita raiva e beleza. a muito de tudo. e quando se sente muito e não estamos vazios aprendemos que o pretérito nem sempre é imperfeito.
quem já sentiu o coração estilhaçar-se não vai querer menos do que uma possibilidade maior de isso acontecer outra vez, e este tempo, esta casa, estão também associados a esse renascer sem a inocência de antes. e à tua nuca em contraluz.
5.20.2012
hoje as paredes do lado falaram e riram-se. ouço-os discutir sobre o Sporting e a Académica. não deixa de ser parvo, mas é vida que se ouve! que boa alternativa ao som dos passos e dos móveis a arrastar, do aspirador e das roldanas da roupa de madrugada, dos talheres a bater nos pratos ao jantar sem se pressentir qualquer conversa vinda de cima. finalmente ouço vida e não apenas coisas. tenho vizinhos novos ao lado.
2.13.2012
hoje reparei no som bruto e seco da fechadura velha e se fechar os
olhos talvez já consiga ir até ao quarto sem espreitar as curvas. a
Isabel diz que só se sente uma casa como nossa no dia em que não
precisarmos das mãos nem dos olhos para vivermos nela. acho que percebi
que eu sou cada vez mais esta casa, ou ela é cada vez mais isto que eu
sou agora.
pus a música, preparei o jantar e olhei para os quadros por pendurar. vou deixá-los assim, porque talvez estas paredes já tenham um bocadinho da minha história. é uma história feliz e nisso até os passos da vizinha ajudam.
pus a música, preparei o jantar e olhei para os quadros por pendurar. vou deixá-los assim, porque talvez estas paredes já tenham um bocadinho da minha história. é uma história feliz e nisso até os passos da vizinha ajudam.
1.24.2012
:: autour de ma maison
é francesa!
faz duas máquinas de roupa todos os dias. de manhã e à noite. os saltos da senhora são uma brincadeira de criança ao pé do guinchar madrugador das roldanas da corda de estender a roupa. ai que saudades de viver em países civilizados onde o estendal, esse ex-libris terceiro mundista, nao faz parte da paisagem urbana...
faz duas máquinas de roupa todos os dias. de manhã e à noite. os saltos da senhora são uma brincadeira de criança ao pé do guinchar madrugador das roldanas da corda de estender a roupa. ai que saudades de viver em países civilizados onde o estendal, esse ex-libris terceiro mundista, nao faz parte da paisagem urbana...
12.21.2011
:: autour de ma maison (3)
a minha casa é mesmo
perfeita, caramba. são 23.17h a vizinha de cima anda neste momento a fazer algo
que se parece com trocar móveis de lugar de saltos altos. tacoes, diria eu se tivesse que apostar,
os mesmos que calça às 6.45 em ponto todos os dias quando sai da cama. talvez até
tome banho com eles...
sempre tive muita
curiosidade em saber como era lidar com estas coisas boas da sociologia urbana moderna
e agora já posso alimentar um ódio de estimação igual àquele que todos os meus
amigos nutrem por pelo menos um dos seus vizinhos. amanhã vou fumar para debaixo do
estendal dela. sou feliz.
12.20.2011
:: autour de ma maison (2)
mudar de casa não
é equivalente a mudar de vida? quantas vezes temos para começar de novo?
:: autour de ma maison (1)
ainda não sei bem
estar na minha casa, mas acho que estou apaixonada. sonolenta e meio perdida, é
assim todos os dias: encho o peito de ar para subir a rua íngreme que vai dar
ao jardim e paro no mínimo três vezes no caminho. às vezes é para olhar para o velho que passa,
outras para tirar uma fotografia ao graffiti. no peito uma vontade estúpida de
decorar tudo e no sorriso a felicidade grande ao chegar ao jardim enfeitado de Natal. lembro-me que estar apaixonada é isto. não saber ainda
muito bem o nosso lugar no corpo do outro e querer muito descobrir um bocadinho
mais a cada dia.
12.08.2011
Subscrever:
Mensagens (Atom)
